Depois da dolorosa e precoce eliminação para a Argentina nas oitavas da Copa de 1990, o Brasil chegou à Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, com a missão de se redimir.

Eliminatórias

Com exceção do baixinho Romário, não havia nenhuma grande estrela entre os atletas convocados por Parreira para as eliminatórias da Copa de 90. E se a Seleção Canarinho não estava tão bem vista pela torcida, o começo ruim aumentou ainda mais a deconfiança.

Em um grupo com cinco equipes, o Brasil precisava ficar entre as duas melhores para se garantir no mundial. Nos quatro primeiros jogos (eram oito no total), foram dois empates, uma derrota e apenas uma vitória, o que colocou nossa seleção numa situação difícil. A Bolívia liderava com oito pontos e nós estávamos empatados com Uruguai e Equador na casa dos quatro pontos (a vitória ainda valia dois pontos).

Na segunda metade, o Brasil se recuperou. Dos quatro jogos restantes, vencemos os três primeiros e chegamos à última partida com 10 pontos. O problema era que tanto Bolívia quanto Uruguai também tinha essa mesma quantidade de pontos e a seleção celeste era a adversária do Brasil na última rodada.

Aí, brilhou a estrela de Romário. O baixinho, que foi convocado depois que as eliminatórias já tinham começado, encheu o Maracanã de alegria com seu poder de decisão: marcou os dois gols da vitória contra o Uruguai e garantiu nossa seleção no mundial do Estados Unidos.

Fase de grupos

O formato da competição era um pouco diferente do que temos hoje. Em vez de oito, as seleções era divididas em seis grupos e avançavam para as oitavas de final os dois primeiros de cada grupo e os quatro melhores terceiros colocados.

O Brasil, cabeça de chave, caiu no grupo B, junto com Suécia, Rússia e Camarões. A Seleção Canarinho acabou em primeiro lugar com sete pontos, depois de duas vitórias sobre Russia e Camarões e um empate por 1×1 contra a Suécia

Brasil 2×0 Rússia

A vitória aqui era obrigatória. O Brasil tinha muito mais time que a Rússia e a vitória na estreia era importante para o time ganhar confiança, já que chegou à Copa com atuações abaixo do esperado.

Apesar de carregar a herança de times bastante competitivos da União Soviética, a delegação russa passou por problemas internos e foi para a Copa com sem seus principais destaques dos anos anteriores, que exigiam a demissão do técnico.

O discurso brasileiro era de respeitar o adversário, mas um resultado ruim poderia nos complicar bastante. Sem maiores sustos, os mais de 80 mil espectadores que foram ao Estádio Stanford assistiram à vitória da Seleção Canarinho com um gol de Romário aos 26 e com um pênalti convertido por Raí aos 52′.

Brasil 3×0 Camarões

Já aliviados pela vitória na estreia e na liderança do grupo porque Camarões havia empatado com a Suécia, as coisas fluíram melhor na segunda partida.

O Brasil se impôs contra a seleção africana e aplicou um incontestável 3×0. Romário (39′), Márcio Santos (66′) e Bebeto (73′) foram os responsáveis pelos tentos que nos deram a vitória.

Brasil 1×1 Suécia

Na rodada derradeira da fase de grupos, o Brasil já estava classificado, mas não havia garantido o primeiro lugar. A Suécia, por sua vez, tinha 4 pontos e precisava de pelo menos um empate para não correr o risco de perder a vaga para Camarões (caso os africanos vencessem a Rússia e levassem a melhor nos critério de desempate).

Nossos adversários buscaram o jogo e conseguiram sair na frente aos 23′ com K. Andersson. Mais uma vez, Romário foi decisivo e apareceu aos 46′ para deixar o seu 3º gol no mundial e empatar a partida. Felizmente, esse confronto se repetiu depois, mas teve um final diferente.

Oitavas

Primeiro jogo do mata-mata contra os Estados Unidos, os anfitrões. Sem tradição nenhuma no futebol, era esperado um jogo tranquilo, mas foi totalmente o contrário: podemos dizer que essa foi a pior exibição da seleção na Copa.

Num primeiro tempo totalmente desastroso, Taffarel quase foi vazado e, com a bola no pé, pouco conseguimos produzir – sem contar as várias faltas cometidas. O primeiro lance de perigo veio no fim da primeira etapa. Sim, com ele mesmo: Romário. Aos 45′, o atacante tentou jogada individual pelo meio, saiu de um marcador, puxou para a direita e bateu. A redonda beijou a trave e saiu.

Na segunda etapa, o baixinho continuava inspirado. Mesmo com a expulsão de Leonardo (42′), que deu uma cotovelada violentíssima em Ramos, Romário teve mais duas chances claras de gol (uma delas depois de driblar o goleiro, inclusive), mas não converteu.

O gol saiu só aos 72′ depois de que Romário (não poderia deixar de ser) enfiou a bola para Bebeto que, de dentro da grande área, bateu cruzado e rasteiro. O goleiro Meola se esticou, mas não conseguiu impedir que a redona morresse no fundo da rede.

Romário estava imparável. Depois do gol, continuou atormentando a defesa estadunidense e conseguiu cavar a expulsão de Clavijo. Foi o grande herói da classificação.

Quartas

Ao contrário do que foi contra os donos da casa, a atuação contra a Holanda foi a melhor do Brasil naquele mundial. Mas o público teve que esperar para assistir ao verdadeiro espetáculo.

O que o primeiro tempo teve de sem graça, o segundo teve de emoção. Nos primeiros 45′, as duas seleções mostraram um futebol burocrático e moroso e a única chance real foi um escanteio cobrado por Zinho na cabeça de Márcio Santos, que mandou à direita da meta holandesa.

Já nos 45′ finais, tivemos um segundo tempo para entrar para história. O Brasil voltou aceso, com sede de gol, e logo nos primeiros minutos abriu 2 de vantagem. Aldair interceptou um passe na intermediária defensiva e fez um lançamento preciso para Bebeto. Na velocidade, o atacante buscou Romário no meio da área e o baixinho não perdoou. Mandou para o fundo das redes com o chute de bate-pronto mais reprisado da história da TV Brasileira.

Um pouco depois, o Brasil voltou a assustar. Jorginho fez boa tabela com Dunga no campo de defesa e disparou pela direita até colocar Bebeto em condição de marcar na entrada da pequena área. O atacante bateu cruzado e a bola resvalou na trave, mas era um presságio do que estava por vir.

Exatos dez minutos depois do primeiro gol, aos 18 da segunda etapa, Bebeto ampliou num lance polêmico. O Goleiro De Goey de um chutão e Branco rebateu de cabeça. A bola foi em direção ao ataque e passou próxima a Romário, que estava impedido – mas como ele continuou imóvel para não participar da jogada, o assistente não assinalou impedimento.

A bola passou e Bebeto, que tinha posição regular, foi de encontro a ela. Aproveitou o cochilo da zaga e arrancou com a redonda até sair na cara do gol e driblar De Goey. Com o gol vazio, foi só partir para o abraço e comemorar com o gesto que ainda inspira gerações: o embala neném.

O grande problema foi o apagão que veio logo em seguida. Mal tivemos tempo de comemorar o segundo gol e lá estava Bergkamp para diminuir a vantagem. O perigoso holandês recebeu um lançamento (de lateral) dentro da área e Marcio Santos falhou no corte, o que deixou o atacante cara a cara com Taffarel. Da entrada da pequena área, Bergkamp estufou as redes.

Aos 76′, o empate. Bergkamp (de novo) tabelou na entrada da área e cruzou; na sequência, a bola bateu na mão de Aldair e saiu para o escanteio. Apesar da reclamação dos holandeses, o árbitro não marcou nada. Só que por ironia do destino, quiseram os deuses do futebol que o Brasil fosse castigado. Overmars cobrou o corner e encontrou Winter completamente livre no meio da pequena área. Falha absurda zaga do Brasil que custou o empate.

A partir dali, o Brasil precisava mudar de postura mais uma vez se quisesse parar o ímpeto dos holandeses e buscar a classificação ainda no tempo normal. E ela veio dos pés de quem menos esperávamos: Branco, o criticado lateral esquerdo que não estava na sua melhor forma física e teve de substituir Leonardo, suspenso por causa da expulsão no jogo anterior.

Em direção ao ataque, Branco correu pela meia esquerda, acompanhado por Overmars. O lateral deixou o atacante para trás com um toque no rosto, mas o árbitro não deu nada. Em seguida, foi derrubado por Jonk e Winter. Koemann chegou logo depois e chutou Branco, ainda caído, como forma de dar o troco pelo lance anterior com Overmars. Depois da pequena confusão que aconteceu, falta marcada para o Brasil e Branco ia na bola.

Branco partiu para a falta de sua vida. Buscou o gol com um chute de trivela forte e com efeito no lado do goleiro mesmo. A bola fez uma curva e, por muito pouco, não desviou em dois jogadores.

Instante em que a bola passa entre Romário e seu marcador

Romário e seu marcador estavam na linha da trajetória da bola, mas o baixinho teve reflexos rápidos para curvar sua coluna para frente (quase como numa cena de Matrix) e a bola passou entre ele e seu marcador. Sem uma visão clara da jogada, De Goey não teve tempo de agir quando percebeu que o petardo de Branco ia em direção ao gol. A bola beijou a trave esquerda do goleirão e foi morrer no fundo do barbante.

Outro golaço do Brasil e Branco parecia não acreditar no que tinha acabado de acontecer. Era o gol da redenção, aquele para calar os críticos. Na comemoração, agradeceu a dois companheiros que foram fundamentais para que ele estivesse em condições de entrar naquela partida: Dr. Lídio Toledo e o massagista Nocaute Jack.

Nos 17 minutos que faltavam para o jogo acabar, o Brasil segurou o jogo. Telê sacou Mazinho e colocou Raí para deixar o meio campo mais defensivo e funcionou. Os holandeses não conseguiram o gol de empate e o Brasil estava classificado.

Semifinal

Era a reedição do confronto da fase de grupos, em que empatamos com a Suécia por 1×1. Os europeus tinham passado pela Arábia Saudita nas oitavas (nenhuma surpresa) e provaram a sua força depois de eliminar a Romênia, seleção que era sensação daquele mundial. Sabíamos que seria um adversário difícil.

A semifinal, apesar do placar apertado, foi um jogo bem jogado. A seleção era marcada por ser defensiva e, por isso, não era tão bem vista pela imprensa e pela torcida.

Mas contra a Suécia tivemos muita qualidade técnica para enxergar e explorar espaços. Foi uma boa atuação coletiva do ponto de vista de criação de jogadas, tanto que só no primeiro tempo foram mais de 15 finalizações e um show de Dunga na distribuição do jogo.

Zinho, Mazinho, Romário e Bebeto bagunçaram a defesa adversária a partir das movimentações entre as duas linhas de quatro que a Suécia usava para se defender, mas faltou capricho para converter as chances criadas. Mas com o avançar do cronômetro, a tensão começava a aumentar, já que o time criava mas o placar continuava inalterado, e a Suécia conseguia postar melhor sua marcação.

Aos 63′, Thern foi expulso por um falta infantil em Dunga. Com um a mais, a tendência era que as coisas ficassem mais fáceis. A Suécia tirou Dahlin (o atacante mais perigoso) para recompor o meio campo e, assim, Brolin e K. Andersson seriam os responsáveis pelas investidas ofensivas.

Romário marcando o gol da vitória (Photo by Neal Simpson/EMPICS)

Finalmente, aos 83′, o gol saiu. Jorginho, que não vinha fazendo uma boa partida porque cometeu mais erros do que o de costume, cruzou na área e encontrou Romário bem posicionado entre dois zagueiros. O baixinho, em cima da linha da pequena área, cabeceou no cão e tirou qualquer chance do caricato Ravelli no lance. Mais uma vez, o dia foi salvo pelo nosso artilheiro com faro de gol.

Final

Primeiros 90 minutos

A expectativa era de um jogo muito interessante. Por um lado, a esperança do Brasil estava na melhor dupla de ataque do mundo, formada por Romário e Bebeto, apoiados por Zinho e Mazinho, que atuavam cada um por um lado do campo e caíam para o meio com frequência. Pela Itália, Roberto Baggio e Massaro eram os maiores perigos gol.

Na parte defensiva, o Brasil tinha mais solidez. Chegou à final vazado em apenas 3 oportunidades nas 6 partidas que disputou (e levou gol em apenas dois dos seis jogos). A Itália, por sua vez, levou gol em cinco dos seis jogos que tinha disputado até ali (só a Noruega não tinha vencido a defesa italiana).

Disputa de bola ente Romário e Baresi, um dos maiores zagueiros de todos os tempos

Na primeira etapa, o Brasil foi bem melhor. Conseguimos incomodar bastante o goleiro Pagliuca, mas, mais uma vez, esbarramos na falta de capricho na finalização e o placar não sofreu alterações. Foram várias as chances na primeira etapa de jogadas em velocidade, de cobrança de falta (depois do gol contra a Holanda, Branco continuou usando seu potente pé esquerdo), cruzamentos na área e rebotes.

No segundo tempo, mais superioridade brasileira. Nossa seleção criou mais que a Itália, que claramente não conseguia conter as movimentações do ataque e Pagliuca seguia sendo exigido debaixo das traves. Inclusive, o goleirão da azurra quase frangou feio. Nosso volante, Mauro Silva, chutou do meio da rua e Pagliuca não conseguiu encaixar a bola, que pipocou na área e bateu na trave, mas o goleiro terminou a defesa.

Ao fim dos 90 minutos, foram 13 finalizações do Brasil contra apenas 3 da Italia, mas o 0x0 ainda era realidade e o jogo foi para a prorrogação.

Prorrogação

Os 30 minutos adicionais foram bem movimentados. assim como o tempo regulamentar. A Itália não conseguiu chegar com tanto perigo, mas teve uma crescente ofensiva em relação ao que vinha apresentando. O Brasil seguia impetuoso em busca do gol, mas o festival de gols perdidos não acabara.

No primeiro lance de perigo, Cafu cruzou para Bebeto, que estava dentro da pequena área e não conseguiu desviar para o gol. A bola pipocou na área e Romário dividiu com Pagliuca para tentar completar, mas o goleiro levou a melhor.

Depois disso, os times alternaram nas chances e a melhor delas foi mais um gol incrível que não entrou por pouco. Cafu, novamente em jogada pela direita, deu um cruzamento rasteiro para Romário que estava correndo em direção à pequena área, mas o baixinho se desequilibrou e chutou para fora, mesmo com Pagliuca vendido no lance.

Aos 16′ minutos, o árbitro finalizou a prorrogação e a decisão teria de ser na penalidades máximas.

Pênaltis

A emoção era absurda. Depois de um jogo com várias chances e nenhum gol, a ansiedade pela decisão do título tomava conta de todos que assistiam à partida. A decisão foi assim:

  • Baresi: perdeu. Chutou tão alto que dá pra dizer tentou tirar a bola do estádio
  • Márcio santos: perdeu. Bateu meia altura no canto direito de Pagliuca e o goleiro adivinhou.
  • Albertini: gol. Deslocou Taffarel.
  • Romário: gol. Deslocou o goleiro e contou com a sorte, já que a bola beliscou a trave antes de entrar
  • Evani: gol. Taffarel caiu antes e o italiano bateu forte no meio do gol.
  • Branco: gol. Bola para um lado, goleiro para o outro.
  • Massaro: perdeu. Buscou o canto esquerdo, mas bateu fraco e muito próximo ao meio do gol. Taffarel caiu e espalmou.
  • Dunga: gol. Cobrança parecida com a de Branco. Bola na direita, goleiro na esquerda.

Baggio chegou à última cobrança da Itália com o peso de precisar converter e torcer para que o Brasil perdesse a 5ª cobrança. O que aconteceu a gente já sabe:

E assim, o Brasil, depois de 24 anos, voltou a estar no lugar mais alto do pódio em uma copa do mundo.

Referências

Para a elaboração desse texto, utilizamos como inspiração os seguintes conteúdos:

  • “Jogos Eternos – Brasil 3×2 Holanda 1994” (Imortais do Futebol)
  • “Análise de Brasil 1×0 Suécia (semifinal da Copa do Mundo de 1994)” (Rafael Oliveira)

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